Sem pressa

Pipipipi.
Pipipipi.
Pipipipi.
Pipipipi.
Pipi.

Foi isso a primeira coisa que ele ouviu naquela nova, porém igual, manhã. O inconfundível e inigualável, som do despertador comprado no camelô. Mais ou menos 16 ou 20 pi`s. Não vai lembrar ao certo pois o sono era gigante.

Mexeu os olhos para todos os lados do quarto tentando enganar o sono, mas sem tirar a cabeça do lugar. Decidiu enfim, iniciar uma reação. Começou seus movimentos pelos pés, que estavam gelados. Estranho, a noite não foi fria, mas tudo bem.

Os movimentos seguintes foram cada vez mais lentos, mas nem por isso ele se preocupou. Não tinha mesmo nenhuma pressa.

Pressa? Pra quê?
Pelo menos foi o que ele pensou, não queria que ninguém ouvisse. Se bem que se ao invés de pensar ele tivesse falado; falado não, poderia até ter gritado, ninguém daria a menor atenção. Morava sozinho desde que decidiu tocar um “foda-se na vida”.

Demorou, mas finalmente estava de pé. Foi direto, mesmo que vagarosamente, para a cozinha. Não sabia o que comer e também não estava preocupado, ia fazer qualquer coisa que demorasse. Demorasse muito.

Pensou em tomar banho para enrolar mais um pouco o tempo, só que nesse caso, a possibilidade da água quente exterminar seu sono o deixou mais preocupado, por isso não passou nem perto do banheiro. Pra se ter uma idéia, escovou os dentes na pia da cozinha mesmo.

Minutos depois, que poderiam muito bem ser horas, ele já estava de barriga cheia e dentes limpos. Só que antes de trocar de roupa, tinha que ligar a TV, sentar um pouco no sofá e por que não, tirar um cochilo? Batata. Foi exatamente o que aconteceu. Até o volume da manchete sobre o trânsito caótico na cidade o acordar de sobressalto.

Trânsito? Maravilha.

Dessa vez ele não pensou, falou mesmo. E nem olhou em volta para saber se alguém ouviu, não por que ele sabia que morava sozinho, mas porque nem percebeu que tinha falado.

Foi se trocar, ainda sem pressa. Colocou a cabeça na janela e deduziu que seu ônibus estava passando lá em baixo, também sem pressa. Nesse caso, culpa do trânsito, acreditou.

Abriu a porta, parou por um instante para ter certeza que não esquecera nada. Tudo bem que preferiria esquecer e ter que voltar. Infelizmente não foi o caso.

Trancou a porta, desceu de escada ignorando o elevador. Levou uma vida, mas desceu. Chegou à porta do prédio, disse bom dia, mas não havia ninguém para responder. Saiu.

Pôde sentir aquele ar quente da cidade na sua cara, o som dos carros que davam veracidade à notícia ouvida há pouco na TV, e, pessoas apressadas que passavam e esbarravam em seu ombro.

Todo dia era uma repetição do dia anterior. Odiava sair de casa. Por isso, nada de pressa. Devagar era seu segundo nome. Correr pra quê? Ainda mais numa cidade como essa. Individualista.

Procurou seus óculos escuros e se deu conta de que havia esquecido; o que já tinha certeza disso desde que fechou a porta de casa. Deixe estar. Colocou para fora de seu bolso a vara que é uma extensão de seu braço. Tocando o chão aos poucos, foi sentindo onde será o lugar para o seu próximo passo. Não espera que ninguém o guie. Mesmo cego de nascença, conhece aquela cidade como a palma de sua mão.

9 comentários:

Nayara Diniz disse...

Varios comentários em um.
Primeiro, estava pra te dizer que senti falta de seus contos, eu que era leitora assidua no começo do blog.
Segundo, como você consegue ser tão pontual nos posts? Todos precisamente as 00:30. Enquanto eu, não cumpro nem hora marcada em encontro.
Terceiro, música triste no final do conto. Agora é a hora que a gente chora por viver uma vida tão rotineira?

Beijo cabeça

Tiago F. Moralles disse...

Vamos lá então.
1º: que bom que sentiu falta, sinal que a coisa é boa hehe;
2º: eles são pontuais porque são programados;
3º: essa música triste é sinal que ficou bom?

Beijo "imbecil carinhosa".

Felipe A. Carriço disse...

A vida passa depressa lá fora.

Tiago F. Moralles disse...

E aqui dentro também.

Fernando Luz disse...

Excelente! Parabéns, Tiagão! :)

Tiago F. Moralles disse...

Valeu velhão.

G. Borges disse...

Uhull contos \o/

E pensamentos conectados. Também escrevi sobre um cara cego esses dias..

Muito bem , muito bom .. e que venham mais :D

Tiago F. Moralles disse...

E por sinal já não é primeira vez que conectamos pensamentos hehe.

Valeu Gé.

Beto Guimarães disse...

Ótimo conto,com um desfecho inesperado. Parabéns, Tiago.