Microconto #124

Cansado, sentou na praça.
Viu, cair uma folha;
subir uma pipa;
correr uma bola;
andar um gato e parar o coração.

Anticristo

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As pessoas assistem aos filmes pelas mais variadas finalidades. Confesso que quando fui ver Anticristo, tinha muito mais em mente a atuação de Charlotte Gainsbourg do que referências de Lars von Trier como diretor. Mas, preciso assumir o desapontamento.

O filme não era o que eu espera, a direção não era o que eu imaginava e muito menos as atuações passaram perto. Tudo que vi de projeção durante 100 minutos foi,
pura arte.

Uma superação. Um olhar. Um cuidado. Um detalhe.

A começar pelo prólogo. Magistralmente conduzido, o início do filme mescla cenas em preto e branco, ao som de uma ária de Handel rodado em alta captação, fazendo um mágico abuso na câmera lenta. E se não for um grande exagero da minha parte, um dos melhores inícios do cinema nos últimos tempos.

Como já decidi há alguns textos, não perder mais tempo em contar a história do filme, quero só falar sobre minha experiência com o trabalho de Lars. Fora prólogo e epílogo, o longa é dividido em outras três partes e conta uma história que você acha em qualquer resenha do filme por aí.

Além do abuso inicial da câmera lenta e outras aparições durante o filme, o diretor usa recursos maravilhosamente incômodos. Assim como as fortes cenas de violência e as grotescas cenas de sexo, capazes de provocar contorções em diversas pessoas na sala, O filme atinge seu ápice como produção, sensação, direção e principalmente interpretação, rendendo a Charlotte o prêmio de Melhor Atriz no último festival de Cannes.

Se o objetivo era ser incômodo, parabéns a Lars, saí da sala muito mais consciente de ter visto arte camuflada de filme do que um filme maquiado de provocações como o já falecido Brüno.

Saudade involuntária

Seu corpo me esquenta de um jeito que o sol ainda não aprendeu.

Parada no bar com um coquetel na mão, ela quase nem sabia o que estava fazendo. Segurava um líquido verde, mais pela beleza do que pelo gosto propriamente dito. Ouvia uma música que o seu corpo acompanhava vagamente, mas sua boca nunca, nem sequer cantarolou algum trecho daqueles refrões metalizados e sem nexo. Olhava por todos os lados de uma forma sutil, não queria que o desespero da solidão fosse visto em seus olhos.

No corpo, um vestido brilhante e reflexivo como a bola que girava no teto. Nos pés, os sapatos de uma vitrine que nunca havia parado para admirar, mas, que lhe custaram 30 dias de trabalho, e, no rosto, uma camada de beleza artificial que passara antes de sair,e que aquela hora da noite, já se tornava na verdade mais um incômodo grudento.

Seu corpo me esquenta de um jeito que o sol ainda não aprendeu.

A cada corpo que se projetava em sua frente na tentativa frustrada de chamar atenção, o coração acelerava na esperança de encontrar algo novo. Diferente. Mundano, essa seria a palavra exata. Mas as promessas provisórias de amor, sempre eram feitas da mesma forma – sozinha gata? – ou – eaí gostosa, quer compainha? – ou – vim aqui com a certeza que ia beijar essa boca tesuda. Todas iguais gramaticamente.

Quanto mais próximo do mundo real, mais longe ficava dos devaneios amorosos. Ainda não sabia o que fazia ali. Provavelmente seu corpo veio a procura de um cara legal.

Legal não.

Um cafajeste.

De caras legais estava cansada. De caras românticos estava cansada. De homens lindos e educados estava cansada. Estava cansada do certo. Já não bastava os anos que dividiu a cama com aquele príncipe de sotaque galicista de quem sente saudades até hoje, que por mais que tentasse esquecer o filha da puta certinho de uma figa, já estava inoculado em seu ouvido seus carinhosos tratamentos:

Seu corpo me esquenta de um jeito que o sol ainda não aprendeu.

Inspiração

A inspiração é como um cisco que vaga por aí e às vezes resolve cair no olho de uma mente viajante.

À Deriva

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Engraçado como o nome do filme me trouxe tantos significados.

Acho que à deriva ficaram as interpretações. Explico. Nada de ruim, mas é interessante como a novata Filipa (Laura Neiva) e o experiente Mathias (Vincent Cassel) foram sugados em cena por Clarice (Débora Bloch), a primeira justamente por ser estreante e o segundo pelo esforço em representar em português perto de um dinossauro da dramaturgia.

À deriva ficaram também algumas cenas. A sensação de repetição deixou o filme um pouco cansativo em alguns momentos. Creio ainda que se fosse uma produção somente francesa, alguns mais conservadores não ousariam falar isso.

À deriva ficou o meu palpite sobre o desenrolar da trama. Apostava minhas fichas em um final clichê. Não errei tanto, mas fui surpreendido em detalhes por Heitor Dhalia, que assim como em O Cheiro do Ralo, conseguiu me deixar na cadeira até praticamente o fim dos créditos. Diferente de algumas pessoas na sala que saíram ainda durante o filme. Ouso dizer novamente que se fosse uma produção francesa isso não aconteceria.

Ah, ainda à deriva, ficou todo meu olhar sobre o filme, que entrei na sala achando que veria um drama sobre uma família em atos de separação, com situações sofridas e todas consequências mais que são de direito. E novamente fui surpreendido, o filme é um drama psicológico sobre os últimos momentos de um casamento, mas a dor e a profundidade dos acontecimentos são de total ponto de vista de Filipa, a jovem que ao mesmo tempo em que descobre a saída da adolescente com experiências, amores, corpo, provocações e prazeres, descobre também a dura entrada no mundo adulto.

Sem contar a trilha que em alguns momentos me deixou em uma deriva sensitiva. Onde em cenas de pós discussão e de climas pesados a trilha assumia e confundia em minha cabeça, sons parecidos a respiradores de ar em hospitais, quem sabe uma anunciação para os últimos momentos de vida daquele relacionamento.

Ouso dizer, por último, que se fosse uma produção francesa, o contexto e a qualidade do filme não seriam suficientes pra me fazer escrever essa crítica.

Obrigado ao cinema brasileiro por ter me permitido resgatar mais um filme que boiava à deriva em meio a sangue, violência, nordeste, pobreza e periferia.

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A MASMORRA

A altura da torre permitia sentir o frio noturno e o canto do vento nas cortinas toda vez que sabia não estar sozinha no quarto.

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A PESTE NÃO OUVE APELOS

O mistério far-se-á quando sem prévio comunicado a surdez for coletiva. Mas como, perguntou o homem alto, e o outro já não respondeu.

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DESEJOS PRÓXIMOS

A relação entre eles sempre foi muito quente.
Desde o nascimento.

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COMO ELA ME FODE

Vem na minha casa, bebe o meu vinho, fuma o meu charuto e some na hora da trepada?
Me masturbo pensando, ah se ela ficasse mais 5 minutos.

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TRECHOS DE UM OUTRO QUINCAS

Ah, caro leitor, pobre de ti se acreditares que a felicidade dos enamorados durou mais do que o dinheiro da Senhorita.

Microconto #123

Seduzia os vizinhos na sacada, os meninos no parque, os alunos na escola, mas não dava conta do marido.

Microconto #122

Com residência fixa, resolvi me perguntar - quem será que mora hoje nos corações vazios que deixamos pra trás ao longo da vida?

Microconto #121

- Onde você estava dia 23, 9 e 20 da noite?
- ...
E por falta de álibi condenaram o mudinho.

Microconto #120

Trocou a fama pelo anonimato.
A profissão de serial killer ainda não lhe permitia tantas regalias.

Microconto #119

Antes de sair ele ainda ouviu.
- Quando vier buscar suas coisas, avisa, vou deixar a porta aberta. Mas é só porque não quero estar aqui.

Tinha tudo pra ser mais do mesmo

Não quis tirar este texto pra falar exclusivamente de um filme, mas sim de uma característica interessante e comum em dois dos quais assisti essa semana. Tratando em ordem de produção, um deles foi O Bebê de Rosemary.

Considerado um grande clássico do cinema-terror, foi dirigido pelo mestre Roman Polanski (em minha opinião, mestre, muito mais pelos trabalhos feitos de 80 pra trás, com exceção para O Pianista). Tem Mia Farrow (a queridinha de Wood Allen) como protagonista em uma ótima interpretação. Conta também com Maurice Evans (de pouca expressão), Ralph Bellamy (idem), John Cassavetes (que também já trabalhou como diretor), Sidney Blackmer e Ruth Gordon premiada com Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante na ocasião.
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O outro filme foi Primer. Pra falar desse, basicamente pode-se citar um nome, Shane Carruth. Produzido de forma independente, Primer foi a porta de entrada de Carruth como diretor, ator, roteirista, produtor, editor, compositor e diretor de fotografia. É um filme de ficção científica (pasmem), feito com míseros 7 mil dólares. Porém, o baixo orçamento não foi suficiente para desmerecer o trabalho. A história em si trata sobre um experimento que acaba proporcionando aos protagonistas, Aaron e Abe, viajar no tempo.
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Não vou perder tempo com sinopses e resenhas, sendo que é possível achar isso em qualquer outro site/blog mais especializado. O que queria discutir é sobre a capacidade de tratar um tema, sem tratar desse tema.

Tá, explico.

O Bebê de Rosemary é um filme de terror, mas um terror psicológico, talvez um ou outro frame possa fugir disso, mas não é aquele tipo de filme que monstros, sangue, olhos, ossos e gritos escorrem e ecoam por toda a sala. Muito pelo contrário, Polanski consegue colocar o horror dentro da nossa imaginação, da mesma forma que brinca com a cabeça de Rosemary, colocando-nos como cúmplices de uma loucura, ou participantes de uma seita, o que varia de acordo com o ponto de vista.

Primer por sua vez, é um filme de ficção científica que não conta com nenhum efeito especial. Denso, inteligente e instigante, pode ser chamado também de nerd. O roteiro é complexo, mas bem amarrado. O filme não tem apenas uma trama, várias pontas podem ser ligadas durante o pouco tempo de projeção. E aqui vai um conselho, caso vá assistir, reserve pelo menos o dobro do tempo, dificilmente consiga perceber todos os detalhes em uma única exibição.

Apesar de Primer ser um trabalho de baixíssimo investimento, é um grande exemplo da possibilidade de contar uma história envolvente, valendo-se apenas do contexto. Óbvio que se os direitos fossem comprados pelo cinema comercial hollywoodiano, assim como há especulações de um remake de O Bebê de Rosemary, as obras estariam repletas de efeitos especiais, entrariam pro hall da fama Spielberguiano, completariam a avalanche anual de mais dos mesmos, e aí sim, com certeza, eu não perderia tempo falando disso aqui.

Microconto #118

E chegou ao último capítulo no roteiro da vida.

Microconto #117

No fundo do bar, em sua nuvem particular de nicotina, gole a gole, ele e o garçom, já cansados da mesma música, flertaram a noite toda.

Maldita vida

Tudo começou com um barulho incrivelmente incômodo. Buzinas, freios, ferros e por fim, gritos, muitos gritos. Uma sinfonia urbana que não durou muito tempo. Fechei os olhos pra poupar minha visão. Bobeira. Quando abri não tinha como não ver, estava lá, no chão, um rapaz ensanguentado, de cara no asfalto. Imóvel.

Uma multidão se aproximava do local. Mais e mais pessoas cercavam o corpo. Corpo mesmo, pois àquela altura, a única coisa que restava do rapaz era só o corpo. Pobre corpo.

Mesmo com o número crescente de pessoas em volta da situação, minha visão do ocorrido continuava limpa e clara. Nada de sirenes, nada de ajuda, nada de nada. Só curiosos.

Eu não sentia dó do que via. Nem sequer pensava sobre a ocasião. Apenas observava. Observava como todos os outros. Alguns choravam a morte daquele ser. Não sei por qual motivo, nem o conheciam.

Telefones tocavam, a impressa chegava e o trânsito aumentava. Mas nada de alguém pra socorrer aquele pedaço da sociedade.

Eu já pensava em ir embora, afinal, o que ganharia ficando ali parado, olhando e reclamando? Uma pessoa que nenhum dos presentes conhece. Uma pessoa que talvez quisesse esse fim mesmo, vai saber. Atravessar a rua daquele jeito não era pra qualquer um. Qualquer um assim, em sã consciência. Mas pela pressa, desespero e pouca atenção, provavelmente era isso mesmo que ele queria. A morte. Bem, está aí então, se era isso que você queria, boa sorte meu caro.

O socorro chegou. Enfim, não sei pra quê. Quis até questionar, gritei – não se preocupa com esse aí não, ninguém conhece, já era - mas ninguém deu atenção, parecia que estavam em transe. Chocados. Paralisados como o corpo. Surdos emocionalmente pra ouvir reclamações, eu acho. Os socorristas continuaram o trabalho de reanimar aquele monte de carne.

- Parem. Gritei. – Deixem de ser idiotas, era isso mesmo que ele queria. Morrer. – Carreguem esse resto de ser humano pr’um cemitério. Mas, contrariando minha opinião, continuavam uma luta constante entre essa e a outra vida. Mais por obrigação do que por esperança.

O tempo passava, eu desacreditava, as pessoas desacreditavam, mas os médicos não. Insistiam e eu ria, era a única coisa que podia fazer diante da cômica situação. Uma tentativa a meu ver, frustrada, de trazer de volta alguém com passagem já marcada.

Quando um súbito mal-estar me fez parar de sorrir. Estranhamente as coisas começaram a escurecer, os barulhos começaram a voltar e uma nauseante e dolorida sensação tomou conta. Remorso?

Fechei os olhos novamente pra poupar minha visão. Mas, infelizmente só os olhos foram poupados. O corpo pôde sentir tudo aquilo. Dor. Muita dor. Quando os olhos involuntariamente voltaram a enxergar, uma película avermelhada cobria minha visão. Cobria, mas não ao ponto de me cegar, pude ver as formas que estavam em minha frente. Muitos rostos assustados e duas cabeças, responsáveis por me trazer de volta à essa vida. Maldita vida.