Microconto #163

De repente as coisas começaram a encaixar.
Nunca entendeu por quê sofrimentos, desgraças e problemas.
Nada daquilo fazia mais sentido agora.

Microconto #162

- Ei! Por favor, volta aqui!
Você esqueceu de levar a saudade, ela pensou.

Microconto #161

No horário de sempre, sento no banco, abro o jornal e vejo ela passar.
Claro que ela sabe que é amor. Todo dia é o mesmo jornal.

Coisas de casal

De uma hora pra outra a cama pareceu suportar perfeitamente os dois corpos. O que no fundo foi uma realidade ilusória, pois o ranger não se fazia mais presente, justamente porque os corpos agora tinham atrito entre si.

O som da noite voltava ao normal com seus carros, buzinas e sirenes. Os gemidos deixavam saudade até para o vizinho solitário do quarto ao lado que os usava como forma de companhia fictícia.

A bela visão do espelho desaparecera. Não havia mais imagem agradável como resposta ao mundo, daquele objeto que refletia um lindo e desnudo corpo de curvas, contornos e cores femininas.

A gaveta parece a de uma nova casa. Roupas e peças menores que despertavam desejos e excitações, não estavam mais lá, ocupavam agora uma mala a caminho de um lugar desconhecido.

A libido, enfim, acalmara os ânimos. Aquele vestido que desfilava propositalmente da sala para o quarto, do quarto para o banheiro e do banheiro para sala novamente, completando o ciclo de tortura e sedução, estava na mesma mala do resto das roupas.

As refeições tornar-se-iam mais caseiras. Os jantares românticos, as velas refletidas em olhares apaixonados e as taças com marcas atraentes de batom, ficaram somente para a memória.

O silêncio reinaria. As declarações escandalosas, os galanteios sussurrados e as provocações ditas com palavras escrotamente safadas, sumiram e deixaram prevalecer a ausência de ruído.

O relacionamento por hora, estará tranquilo. Ela foi refugiar-se daquela desilusão na casa da mãe, que sempre lhe aconselhou. Ele foi refugiar-se em goles de algum tipo de álcool, em estiletes sem cortes e comprimidos sem efeitos; não podia morrer, sabia que ela sempre voltava.

Microconto #160

Hoje a mão dela encostou na minha. Me deu um frio na barriga.
Sempre ouvi dizer que amor de colégio dura a vida toda.

Microconto #159

No sábado a tarde,
deitados na cama,
ela me contava as pintas pelo corpo, e eu,
perdia a conta de quanto tempo ainda queria ficar ali.

José

Por que Paloma partiu? – Pensava Pedro permanentemente.

Preferiu perder-se por paixão própria?

Preferiu parir por parte palaciana para perder propositalmente Pedro pobre? – Pensava palidamente.

Prematuramente Paloma partiu. Poemas, poesias, papéis paupérrimos; por poucas partes perdia-se Paloma.

Paixões plurais preocupavam Pedro. Paloma pervertida? Pior, Paloma puta? - Pelo pai! - Por que pensar porcaria? - Para! - Partiu por pura preferência.

Pouco pafioso, preferia pensar puramente - Perdi Paloma pela pobreza.

Pedro pediu perdão pro Pai por pensar problemas propositais. Perdeu passado; presente; Paloma.

Proclamou publicamente prólogo, prefácio, prelúdio para posterior ponto positivo. Puro pifianismo.

- Porra. Perfeitamente. Perdeu Paloma por promessa paterna.

Pachocho Pedro, preferira permanecer preso pelo “P”, para padronizar propósito prometido pelos pais.

Portanto, perdeu Paloma para Paulo. Era Paulo, mas era José Paulo.

Microconto #158

A cada discussão imatura o relacionamento escoava junto com as lágrimas.

Microconto #157

Depois de muito custo, realizou o fantasioso Ménage à Trois do marido.
O difícil mesmo foi assistir de fora.

Microconto #156

A loteria acumulava, assim como os sonhos e as dívidas.

O que ficou de ontem

Depois de encontrar, depois de conversar, depois de provocar, depois de ver, depois de mostrar, depois de ouvir, depois de falar, depois de ler, depois de escrever, depois de querer, depois de desejar, depois de imaginar, depois de pensar, depois de acarinhar, depois de beijar, depois de tocar, depois de suar, depois de excitar, depois do prazer,
depois do tesão,
depois de mim,
depois de você,
depois de tudo.

O que ficou foi lembrança.
Escorrendo na mão,
simples,
branca e
quente.

Microconto #155

Uma vez conheci um cara bem otimista.
Desses que a gente encontra no espelho sabe?
Infelizmente foi só uma vez.

Microconto #154

- Adoro quando você fala dormindo. Hoje, por exemplo, aconteceu de novo. Só que mais uma vez não foi o meu nome que você disse.

Microconto #153

As coisas que ela mais gostava eram exatamente as que ele menos fazia.

Resposta a um e-mail provocativo

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Não responderia por meu corpo.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Não obedeceria meus limites.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Quereria tu não as ter pronunciado.

Ah se essas palavras estivessem cá,
ao pé d’ouvido.
Seria pouca tua imaginação pra responder o prazer.

Ah malditas palavras que cá não estão.
Que fazem de ti bendita,
e ainda viverá até o próximo gozo.

Deixa ela entrar

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Fazendo parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema, Deixa Ela Entrar é um filme considerado atípico.

Numa época onde os sucessos hollywoodianos estouram de bilheteria com filmes comercias contando histórias de vampiros, o diretor Tomas Alfredson consegue fazer diferente. O filme sueco é uma história de vampiro pra gente grande.

Apesar do enredo simples e com alguns clichês, é possível perceber detalhes de câmera, roteiro e fotografia que dificilmente um filme de terror poderia apresentar.

Inteligente, nada grotesco e ao mesmo tempo delicado, o longa acumula até o momento mais de 40 (já perdi a conta) prêmios internacionais. Não só como roteiro mas como referência para o cinema, cogita-se já a possibilidade dele ser regravado em hollywood. O que convenhamos, ganharia muito em investimento enquanto paralelamente, perderia muito na simplicidade.