Microconto #215

Passou por mim na contramão da escada rolante.
Sumiu da vista.
Mas sempre aparece nos sonhos.

Microconto #214

Seu maior desejo era acordar.
Acordar desse mundo midiaticamente surrealista.
Queria simplesmente ver o mundo real.

Microconto #213

- Pronto, já comprei a luneta, agora só falta o apartamento.

Calaboca

E chegou o dia que Ruth não sabia mais o que falar. Quase ninguém notou no começo, ela, uma mulher inteligente, madura, com voz própria e autoritária, entrou em uma mudez involuntária, da qual não sabia o início nem muito menos o desfecho.

Quando percebeu, foram só simples palavras que não saíram. Achou ser um instante de vazio intelectual, nada que fosse durar por muito tempo. Preferiu não comentar com ninguém e ficou redundantemente calada. Aos poucos, aquilo começou a incomodar Ruth que sempre gostou de falar, e que provavelmente deve ter engolido uma agulha de vitrola quando pequena, coisa que a mãe sempre dizia.

Até chegar o momento que ela não aguentou mais o barulho do seu próprio silêncio. Tentava desabafar, mas era em vão. As horas passaram, os dias passaram e tudo mais o que pudesse passar passou. Ruth já havia se perdido no tempo. Queria saber por que ninguém reparava na sua ausência de palavras.

Mais tempo passou até que Ruth percebesse que junto com ela, outras pessoas também começaram a perder a voz. Eram multidões e multidões que se multiplicavam aos montes. Mais e mais pessoas, milhares e depois milhões. A sociedade deu lugar ao convívio sorrateiro e silencioso.

Depois de todo o desgaste e sofrimento, nada mais foi necessário; de tanto guardar seus argumentos só pra ela, acabou sucumbindo ao mudismo dos povos. O que só ela notava no início, agora já não fazia mais diferença. Ninguém mais falava, ficaram todos calados e não se ouvia mais nenhuma manifestação ou ideia.

E assim, com uma forçada e torturada transição, o ano de 63 conheceu o de 64, e a democracia deixou saudades.

Microconto #212

Passaria do presente não fosse um erro de conjugação da vida.

Microconto #211

Pro velho ranzinza, a recompensa da morte foi o silêncio.

Romances efêmeros

Ah, paixão efêmera, de uma infância efêmera de efêmeras também lembranças. Queria eu poder dizer dessa época como se já tivesse passado há muito tempo. Mas isso faria parecer-me calunioso, pois essa fase ainda nem bem pode ser chamada de passado, graças ao seu recente acontecimento.

Repito esses momentos aqui, pois dia desses, cruzei pelas andanças, com paixão antiga, paixão como disse, efêmera. Queria eu podê-la chamar de eternal, mas a brevidade do amor não me permitiu.

Foram pequenos instantes, mas instantes suficientes para que a memória sofresse com o desejo do regresso. Quando disse infância, quis referir-me ao mais puro e angelical momento dos amores, os amores jovens, sem pesos e cobranças. Os amores dos beijos.

Cobiçada por alguns; não por todos, já que beleza é somente um gostar subjetivo; eu era um desses alguns. Lindos olhos, era isso que me atraia. Nunca me passou pela ingênua mente que aquele desejo viraria realidade, não por falta de imaginação, claro, mais por falta de contexto.

Apesar de ser uma recordação não muito distante, faltam-me lembranças para explicar ao leitor como tudo aconteceu, sei que foi um momento de fraqueza romântica da menina, como na ocasião ainda poderia ser chamada. As palavras foram trocadas, as bocas unidas e assim, o mundo calou-se naquele instante.

Aos meus olhos, houve prestidigitação, apesar de breve, muito breve por sinal, um beijo que me fez sentir iludido, e usado para acalentar um coração. Mesmo sabendo que não era recíproco amor, beijei; fui beijado e usado, disso eu tinha certeza. Mas, reiterando, dia desses, cruzei pelas andanças, com paixão antiga.

Os olhares também se cruzaram, diferentemente das bocas que só se limitaram a um regozijo. As lembranças deixaram saudade, e, por mais que eu quisesse, sabia que, infelizmente, não voltaria a me sentir usado.

Microconto #210

Escreveu na pele dele todo o amor daquele momento.
O calor dos corpos borrou a mentira da mesma forma que a frieza borrou a relação.

Microconto #209

- Senhores passageiros, espero que tenham realizado os sonhos ainda em vida.

Microconto #208

Na isolada casa de campo, o corpo demorou a ser encontrado.

Microconto #207

Pegou os patins, o carro e alimentou o sonho nostálgico.

O lago era o mesmo da infância,

inclusive, o gelo também deve ter ficado por lá.

Microconto #206

Tinha vários caminhos pra seguir depois que a relação terminou.

Escolheu o que acabava mais rápido.

Microconto #205

Há alguns anos começou a ver o mundo de uma forma mais clara. Não percebeu, mas a idade trazia junto, males como a catarata.

Microconto #204

Aquele vidro também era a prova de amor.

O máximo que consegui dela foi só o nome, e ainda por causa do crachá dedo duro.

Não vou me alongar

Texto publicado originalmente em Caixa de Histórias


A produção atual de conteúdo versus a falta de tempo é uma batalha que vem fazendo vítimas e mais vítimas a cada dia. É possível afirmar que passamos daquele momento do discurso palestrante sobre ”Como administrar seu tempo” e entramos numa nova fase, a de “O que colocar no seu tempo”.


O problema hoje não é mais arrumar um espaço em sua rotina, afinal ela não vai ter um espaço mesmo, então, desista disso. A prioridade é como escolher o que vai ocupá-la. Quer ler um livro? Abra mão de um filme. Quer ver um filme? Abra mão da academia. Quer ir à academia? Abra mão do sono. E assim, as necessidades diárias vão sendo revezadas.


O que me fez escrever sobre isso, foi uma discussão iniciada no Twitter há alguns dias. Tinha acabado de ler Crime e Castigo do Dostoievski, que por sinal levei um bom tempo, e fiz um comentário do tipo “Crime e Castigo é uma análise ótima e pertinente do comportamento humano, mas com páginas em excesso fora de sua época literária”. Meu objetivo não era desmerecer o trabalho, e sim, gerar uma reflexão. Pense comigo, com a velocidade que as coisas acontecem e com o volume de informação a qual somos submetidos, não é todo mundo que consegue pegar um livro, por exemplo, de 600 páginas e consumi-lo, sem deixar de lado outras opções de atividades.


Outra inferência externa que pode ser levada em consideração é o comportamento da sociedade. O consumismo e a interatividade são duas características pertinentes que nos levam a outras duas: a busca acelerada em ter alguma coisa, te traz a ansiedade, enquanto a busca acelerada em fazer parte de alguma coisa, te traz o imediatismo.


Ambas as atitudes geram pessoas desesperadas pelo todo. Queremos ver tudo, ler tudo, saber de tudo, falar de tudo, fazer de tudo e ter tudo. Aqui entramos novamente na questão “administração de tempo”. A quantidade de desejos realizáveis, não é mais compatível com o espaço ocupável do seu dia. Logo, seus desejos precisam ser realocados. Nada de arrumar um tempo, hoje, o máximo que você consegue, é trocar uma coisa pela outra.


Eu sei que o assunto ainda dá pé, mas prometi não me alongar. Afinal, provavelmente você teve que trocar alguma coisa importante pra poder ler isso até aqui.

Microconto #203

Nunca mais mentiria na vida.
Essa era a última vez.