Calaboca

E chegou o dia que Ruth não sabia mais o que falar. Quase ninguém notou no começo, ela, uma mulher inteligente, madura, com voz própria e autoritária, entrou em uma mudez involuntária, da qual não sabia o início nem muito menos o desfecho.

Quando percebeu, foram só simples palavras que não saíram. Achou ser um instante de vazio intelectual, nada que fosse durar por muito tempo. Preferiu não comentar com ninguém e ficou redundantemente calada. Aos poucos, aquilo começou a incomodar Ruth que sempre gostou de falar, e que provavelmente deve ter engolido uma agulha de vitrola quando pequena, coisa que a mãe sempre dizia.

Até chegar o momento que ela não aguentou mais o barulho do seu próprio silêncio. Tentava desabafar, mas era em vão. As horas passaram, os dias passaram e tudo mais o que pudesse passar passou. Ruth já havia se perdido no tempo. Queria saber por que ninguém reparava na sua ausência de palavras.

Mais tempo passou até que Ruth percebesse que junto com ela, outras pessoas também começaram a perder a voz. Eram multidões e multidões que se multiplicavam aos montes. Mais e mais pessoas, milhares e depois milhões. A sociedade deu lugar ao convívio sorrateiro e silencioso.

Depois de todo o desgaste e sofrimento, nada mais foi necessário; de tanto guardar seus argumentos só pra ela, acabou sucumbindo ao mudismo dos povos. O que só ela notava no início, agora já não fazia mais diferença. Ninguém mais falava, ficaram todos calados e não se ouvia mais nenhuma manifestação ou ideia.

E assim, com uma forçada e torturada transição, o ano de 63 conheceu o de 64, e a democracia deixou saudades.

17 comentários:

Natalya Nunes disse...

Se exilou em seu próprio silêncio.

V i h disse...

"Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa"

Acabei me lembrando dessa música, que acho que é do Chico Buarque, e só posso dizer que muitas vezes, o silêncio arde na garganta...

Estefani disse...

Pra mim se a democracia existiu foi apenas de passagem.

Beijo.

César Mengozzi disse...

Se ela continuasse falando ia apanhar muito nakela época, mas hoje poderia ser presidente do país. eheheh

Vinícius F. Magalhães disse...

O silêncio valia por miríades palavras.

Tiago Moralles disse...

Bem observado Fã.
Fiquemos calados?

Victor Carvalho disse...

Foda. Comecei com uma sensação de ficção, Saramago, coisa e tal. E, quando percebi, estava lendo sobre a realidade. A merda da realidade.

Tiago Moralles disse...

Bem observado Victor, a merda da realidade.

Dani Brito disse...

No começo eu super me identifiquei com ela, porque eu sou uma faladeira de primeira, dominada pelo silêncio.
Mas enfim, concordo com o Cesar ali.
Beijo

Lila disse...

O silêncio tb sufoca...sufocou toda uma geração.
Hj, temos direito às palavras, mas sem ninguem para ouvi-las.
Bjkas

Kátia disse...

Show o seu blog, estou se seguindo, me segue lá!! Beijooos.

Tiago Moralles disse...

Sempre nos identificamos Dani.
_

Lila, mesmo calados, todos gritaram de dor.
_

Valeu Kátia.
Microbeijo.
Seja bem vinda.

ideiasexplosivas disse...

pô, tiagão! achei que vc fosse escrever o "ensaio sobre a mudez" hahaha

abs

Barbara C disse...

Tanta gente quer falar e não consegue.

Concerteza 64 foi melhor com mais vozes rs!

Felipe A. Carriço disse...

Durma no barulho e acorde surdo.
Durma em silêncio e acorde sem voz.

Sentilavras disse...

Tbm me fez lembrar de Saramago. Adorei esse texto.

Rúcula disse...

( ) MTO BOM