Microconto #250

No farol,
junto com as bolinhas,
o menino catarrento,
jogava a esperança também.

Microconto #249

Sem teto e sem terra,
o homem sem família,
ficou esquecido como tantos outros sem pátria.

Microconto #248

Depois que o déjà vu passou a ser repetitivo,
ele ficou preso eternamente numa falha do destino.

Te conto em uma licença poética

Ah, suas mãos.
Te digo.
Como é diferente esse toque do que já foi um dia.
Te peço.
Fica mais um pouco e faz o que quer que seja.
Te quero.
Suas mãos são pouco pra excitação do agora.
Te olho.
O que você faz obedece uma lógica não linear.
Te toco.
Sua pele mesmo arrepiada não perde a maciez.
Te aperto.
Sua voz, suspiro e gemido se confundem em minha mente.
Te bato.
Sua cara não apresenta repressão.
Te mordo.
Suas costas não demonstram devoção.
Te molho.
Meu suor gruda na sua degustação.
Te xingo.
Seu nome se perde em palavrões.
Te excito.
Entramos em transe consequente mesmo antes da transa.
Te cuspo.
Os fluidos se misturam num ritual infanto-masoquista.
Te falo.
Com o corpo em espasmos naturais.
Te dispo.
Enfim toda sua pele reflete em meus olhos.
Te mostro.
Dentro e fora a casca da paixão.
Te penetro.
Os corpos ainda lembram o ritmo.
Te como.
O amor perde a vez.
Te violo.
Somos duas massas atrás de prazer.
Te jogo.
Meu corpo te encontra novamente por atração.
Te seguro.
Aproveito da sua indiferença.
Te gozo.
De uma paixão rendida e um retorno ilusório.
Te imagino.
Como se fossemos reatar.
Te acabo.
Já com saudades no coração.
Me acabo.
Em uma solitária masturbação.

Microconto #247

Uma vez no ponto de ônibus,
vi um homem dançando no ritmo da música que eu ouvia no iPod.
Engraçado, o resto do dia pareceu um Musical.

Microconto #246

Depois de um disparo seco,
entre um poste e outro da Roger Veiga,
onde a noite é mais escura,
um homem gemeu a noite toda.

Microconto #245

Ela chegou de mansinho,
com carinho,
mas sem nenhum jeitinho.
Tudo bem, gosto dela,
mesmo com toda essa beleza renascentista.

Das vezes que eu passo

Passo pra te dar carinho, beijo na boca e deitar no teu colo.
Passo pra mostrar que me importo, que te imagino na grama a falar sorrisos.
Passo pra dizer que és bela, e te convido pra contar estrelas, num pedaço do céu só nosso.
Passo pra dizer que tô bem, que foi bom acordar do teu lado aquele dia com bochecha de noite quente.
Passo pra dizer que já sinto saudade, que tuas mãos me provocaram, mais do que tua mente pensava.
Passo pra dizer que não passei de um simples passante em tua vida,
e que voltarei pra dizer que passo quantas vezes mais você sonhar.

Microcontos Molestos - AVC

Pelo menos o safado não vira mais pra olhar as menininhas na rua.

Microcontos Molestos - Câncer

No natal comprou um presente a menos.

Microcontos Molestos - Alzheimer

- Veja bem Dona Rosa. Esse é o remédio do coração, e a senhora só pode tomar uma vez por dia.

Microcontos Molestos - AIDS

Levou mais do que os bens na separação.

Microconto #244

Amigo... minha dose nasceu,
desce aí pra mim mais um filho com gelo...
meu troco não volta hoje mesmo.
Pode ficar ca minha mulher se quiser.

Microconto #243

Aqui de trás,
tudo que vejo em suas costas é o arrepio,
provando que o nosso calor também dá frio.

Microconto #242

A vida foi injusta.
Esperaria isso de qualquer um. Mas,
saber que sua cara encheria de rugas,
deixou-a prematuramente velha.

Microconto #241

Depois de atirarem as pedras,
os pecadores voltaram pra casa,
sem nenhum peso na consciência.

Microconto #240

O mercado árabe multiplicou seus clientes depois da explosão.