Microconto #348

Pelos ruídos no quarto ao lado tinha certeza que o vizinho era bem mais feliz.

Microconto #347

Sobrou da festa seis garrafas órfãs, dois cinzeiros cheios de histórias e algumas pessoas com vestígios de libertinagem.

Microconto #346

Quando percebeu que vivia dentro de um filme foi tarde demais. Até tinha começado bem, mas o final não seria hollywoodiano.

Microconto #345

Já sei.
É paixão digital.
Daquelas que a gente constrói com TC’s, VC’s e outras abreviações que nem o coração consegue entender.

Microconto #344

O café era a única forma dele se manter acordado,
o álcool, cafajeste,
e o viagra, casado.

Memória

Comemora lembranças. Não é sempre que lembra das coisas. Da escola, por exemplo, quase nada. Da universidade um pouco. Do casamento. Da guerra. Fisioterapia. As crianças. Os títulos do Dallas. Velório da mulher. O derrame. Os filhos que foram embora trabalhar. O pessoal da assistência social. O asilo.
Nessa hora sorri.
Lembrou de uma piada que Mark Twain fez sobre os ingleses.
Mas esqueceu de novo quando foi contar pra enfermeira.

Microconto #343

Senti um pedaço quente do meu corpo dentro dela.
Um buraco era tapado no presente e outro aberto no futuro.

Microconto #342

Sabia que era sua grande chance. Só o que separava ele de um homem rico eram 25 cm, de puro ferro com cinco balas no tambor.

Microconto #341

Gostoso acordar do teu lado,
ver em teu rosto marquinhas dos dedos,
em teu corpo, traços do lençol
e em tua cama, vestígios de amor.

Na sala de espera

Ela tinha uma aliança no dedo. O que o fez imaginar como seria sua vida de casada. Alguma coisa devia ter, ou ela não passaria esse tempo todo flertando. O que será que lhe faltava em casa? Ou na cama, quem sabe. Não era sempre que trocava olhares assim com alguém, mas sentiu que ali era especial. Bonita, atraente, sedutora. Acho que tem futuro, ele pensou. E a única coisa que passou na cabeça dela foi, por quê será que aquele careca tá me olhando?

Microconto #340

No fantástico mundo da digitalização, as teclas viravam bits e chegavam do outro lado em forma de poemas cibernéticos.

Microconto #339

A escuridão e incerteza destas breves palavras habitam o castelo frio e assustador de minha mente.

Microconto #338

Forrava as paredes do quarto com textos alheios.
Confissões dos outros que abafavam seus prazeres particulares.

Microconto #337

Contra os dogmas da igreja, o herege canibal discutia com o padre:
- Quem é mais errado em comer criancinhas?