Branco literário

Incansavelmente eu tentava resgatar algumas palavras do ainda mínimo repertório que tinha. Não era fácil. Além da saudade que a inspiração deixava, minha simples bagagem não era suficiente nem pra uma humilde viagem ao mundo da criatividade literária.

Foram letras difíceis. Muito difíceis por sinal. A cada nova palavra que esboçava se formar, um turbilhão de alegria se exauria, e óbvio, secava novamente a fonte da insistência.

Não era fácil.

Inquietação, desespero e raiva da mente, tomavam conta do meu corpo. O corpo, por sua vez, sentia a ânsia de vomitar naquele pedaço branco do editor de texto, apenas uma palavra. Uma - maldita - palavra - que - pudesse - resgatar - a - inspiração.

Mas, contra minha vontade, o relógio não parou seu ciclo, o tempo não deixou de seguir sua forma rápida e cruel de passar e o insensível pontapé inicial não saia. O branco se tornava mais branco. Eu não sabia o que cuspir na tela. Escarrar, quem sabe; até o asco poderia resolver o meu problema.

Mas não. Nem ele apareceu.

Foram no começo, saudáveis minutos, depois, estranhas horas e agora, agonizantes dias. Mas não veio. Nada. Nem mesmo uma frase, um ditado, um trocadilho ou quem sabe um trocadalho.

Seco.

Escasso.

Parco.
Poderia ser um verso. É. Isso. Um verso. Pedi à memória que resgatasse qualquer resquício romântico, perdido e largado no fundo do inconsciente. Mas o que eu não lembrava é que não amo faz tempo. Não sei mais o que é amor.

Nossa. Será que até isso secou? Já não bastava a inspiração para escrever? Por que o amor também teve que sumir?

Não, por favor, o amor não. Pedi inocentemente, deixe-me pelo menos o amor pela escrita. Com ele acho que recupero a inspiração.

Nada feito.

Cheguei ao final dessa crônica sem saber como começar. Não sei se estou em uma abstinência literária criativa ou apenas em uma rebeldia mental. Não sei mesmo. A única coisa que sei agora, é, socraticamente, que nada sei.

17 comentários:

Natalya Nunes disse...

É mais fácil o mar secar e o Arruda arredar do que você perder a inspiração, Ti.

Adorei isso:
" Não, por favor, o amor não. Pedi inocentemente, deixe-me pelo menos o amor pela escrita. Com ele acho que recupero a inspiração."

Estefani disse...

Não! Não desista ainda há tempo, o caminho pode parecer difícil, mas é belo, incista um pouco mais... a fonte do amor se recarrega sempre... Siga em frente...

Iasnara disse...

minha admiração crônica fica ainda mais clichê entre os fodas e os fodidos.
mas repito, gosto da escrita assim, tiagoresca.

Tiago Moralles disse...

Espero veementemente que não seque, nem aqui nem aí.

Vivian disse...

ETERNA BUSCA!

...revejo as horas.

os ponteiros do relógio
parecem ter adormecido
num coma profundo.

caminho perdida, entre
as folhas brancas
dos meus pensamentos
que nem eu própria
sei entender.

sinto que me falta algo,
mas não sei o quê.

é um nada em
quatro folhas,
com o significado
da existência
do não existir.

o nada é ôco como
uma casca de noz,
tênue como a asa
da borboleta.

a realidade passa
ao meu lado, e
eu estremeço!

vejo-a e quase lhe toco.

e no entanto, recuo,
deixando que a alma decida.

só ela conhece os caminhos
secretos da minha vida.
hoje excepcionalmente
sem inspiração.

bj, querido!

Tiago Moralles disse...

Uau Vi.
Um comentário praticamente mais importante que um post.
Adorei.
Beijo inspirado.

Pattricia disse...

A falta de inspiração que é pura arte...amei Tiago...ah sim!!! Vivian que poema mais lindo, parabéns...
Hj vcs me inspiraram...Bj, Pattricia

A Moni. disse...

Esse tal de Amor é mesmo foda. faz o que quer da gente. Inspira, cala, muda até a respiração. esconde nossos dicionários também.

Mas aí tem um outro, mais foda que ele - o tal do Tempo - que vira a ampulheta e nos joga de cabeça pra baixo à mercê da sua vontade.

Aí, é assim: cada um escolhe: perde tempo tendo raiva de se sentir marionete ou curte o sobe-e-desce como se estivesse num parque de diversões...

Tá, eu tô Pollyanna.
Tenho que ficar...rs
Não tem saído nada por aqui tb.
E olha que eu lembro bem o que é o amor...

Beijim, moço!

Diu Mota disse...

Falta vida? Falta amor? Sempre falta alguma coisa mesmo! Há de ressurgir o algo que falta...

Tiago Moralles disse...

Fiquemos todos então a mercê de alguma coisa.

Silvia disse...

O silêncio as vezes fala mais do que qualquer palavra.

Lembrei dessa música:
Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras momentos.
Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar...
Palavras ao vento!

(vc até sem inspiração,
é inspirado(r))

Tiago Moralles disse...

Assim até inspira heim Silvia.
Beijo.

Felipe A. Carriço disse...

Quando for assim, dê uma utilidade ao papel. Faça um origami!

Gessica Borges disse...

E no final deu tudo certo.
Isso é genialidade seca. Ah! Se é.

Barbara C disse...

Tinha sonho de ser escritor ,quem disse que não é ,faltou so uma coletania dos melhores textos e microcontos.

Ele não amava havia tempo ,era um sinal pra a que inspiração sumisse.

bjs

Marcelo Mayer disse...

ode ao setralina 50mg

Giovanna Melanie disse...

Primeira vez que venho aqui, e não me arrependi. É inspirador quando você vê que não perdeu tempo lendo algo tão bom.
adorei