Microconto #116

- E o que te fez confessar todos os assassinatos, assaltos e sequestros, e desistir dessa vida?
- A concorrência doutô, a concorrência.

Microconto #115

No isolado posto onde só o sol fazia companhia diária, nem o vento parava.

Microconto #114

Pegou o lápis, cravou no olho e torceu pro ato lhe trazer, além de dor e remorso, pelo menos inspiração.

Microconto #113

O caminhoneiro irresponsável, esqueceu tarde demais, que a carga mais importante estava na cabine e não na caçamba.

Microconto #112

- Não vou viver com eles nesse mundo de loucos.
Preferiu conversar, trancado eternamente no quarto, com o amigo invisível da infância.

Lolita

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Incomparável. Acho que essa seria a palavra certa quando o que está em jogo são as duas produções de Lolita: o livro de Vladimir Nabokov e o filme de Stanley Kubrick.

Nada contra o trabalho de Kubrick, pelo contrário, linda fotografia e boa direção, sem contar que algumas interpretações ajudaram muito. Mas o livro, em minha opinião, fica um passo a frente quando colocados lado a lado. Acho, talvez, reflexo da única indicação ao Oscar em 1963, para Melhor Roteiro Adaptado.

O detalhe mais evidente que produziu essa diferenciação, foi a sensibilidade. Na obra literária, Vladimir consegue tratar o tema com um olhar delicado que permite ao leitor fazer parte da história de forma gradativa e densa, colocando Humbert, o personagem “pedófilo”, como vítima da “pequena” Dolores Haze (Lolita).

Essa capacidade intrínseca, acaba sendo diluída no filme, um pouco por conta de uma sutil frieza e outra por conta da minha subjetividade, que a essa altura já estava praticamente dentro do livro.

Resultado Segunda Edição do 140 Letras

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Demorou mas saiu. Como disse Roberto Moreno, “dificuldade de acesso à web e problemas de saúde fizeram com que eu deixasse o 140 Letras em segundo plano”. Mas o que importa é que está aí.

Foi legal participar da seleção, muita coisa boa pra conferir e muito material como referência. Também fizeram parte do Júri o ator Ivam Cabral (@ivamcabral), a produtora cultural Liliane Ferrari (@lilianeferrari), a escritora Liliane Prata (@liliprata) e o produtor musical Pena Schmidt (@penas).

Confira abaixo os três microcontos selecionados e para mais informações acesse o site do 140 Letras. Até a próxima Edição.

@bellameneses: Ela queria alguém sem consciência, sem clemência, com importância, com arrogância, com prepotência e com potência. Muita potência.

@Cerquize: Tudo que seu chefe pedia, o contorcionista fazia com o pé nas costas.

@clarissafelipe: Ela lembrou de não ter pensado em nada antes de tomar aquela decisão. Essa lembrança explicou muito da sua situação atual.

Últimos instantes

Os olhos vidrados e apreensivos. Cada segundo parecia um momento eterno. Não era sempre que ele tinha aquela sensação de desespero. Todos parados e tudo imóvel, era como se todos que estavam lá, não percebessem o que acontecia. Quanto mais tempo naquele lugar menos tempo de vida, era essa sua filosofia.

Um aglomerado de gotículas ia acumulando em sua têmpora, formando assim, uma gota única de suor que parecia não querer ser expelida de suas glândulas sudoríparas, mas que com a tensão interrupta do efeito do caos momentâneo, não demorou a seguir seu curso, percorreu toda a circunferência de sua face, proporcionando-lhe um calafrio atormentador e repulsivo.

Ninguém precisava lhe falar, ele podia ver, ouvir e sentir, sua hora estava chegando, estava ali, só há poucos minutos, que por sinal, pareciam horas realmente. De repente, um movimento sutil de um dos presentes, provocou uma reação em cadeia em todos, ninguém reparava, parece que não estavam dando à mínima. O mundo estava em constante rotação desde sua origem, e até aquele momento só ele havia percebido isso, afinal, aproximava-se cada vez mais de seu infeliz destino.

Mais um movimento sutil quebrou o atrofiamento do tempo - meu deus, será que ninguém percebe a agonia que esse instante representa? - ele gritou, mas internamente, preferia não despertar todos de uma só vez daquele transe, vai saber no que isso acarretaria. Mais um sutil movimento. Pronto, ele sabia, será sua vez, está tudo acabado.

Outra gota de suor se formou e escorreu pelo seu rosto, só que agora, o desespero era tanto que ele mal percebeu toda aquela reação biológica da primeira vez. Mais um movimento sutil, o tempo agora parece voar, no mínimo, a rotação da terra aumentou a velocidade. Outro movimento e mais uma gota, outro movimento, e outro, e outro, e outro. 3-8-4. Pronto, agora é ele. Caixa 5. Todo final de mês é a mesmo coisa. É por isso que Kléber odeia fila de banco.

Pecados íntimos (e uma infeliz tradução)

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Um filme no qual os personagens apresentam uma evolução lenta, gradativa e degradante de seus desejos e sensações oprimidos.

Não entenda isso como uma crítica, pelo contrário, esse é o melhor detalhe do longa. Os papéis de Sarah, Brad e Ronald, respectivamente representados por Kate Winslet, Patrick Wilson e Jackie Earle Haley, sendo Kate e Jackie indicados ao Oscar, são os de mais destaque. Não pelo fato de ser o trio protagonista, isso seria óbvio, mas pelo desenrolar de suas características.

O diretor Todd Field consegue oscilar os três entre mocinhos e vilões de uma forma suave e agradável. A história é simples, mas o que justifica os 130 minutos de duração são justamente essas oscilações e evoluções. Os personagens ao longo da projeção vão ganhando características fortes, e aos poucos, nos fazem coniventes com determinados atos.

Ponto para a adaptação do livro de Tom Perrotta e ponto para as interpretações. Little Children como é o título original, ou, Criancinhas em livre tradução, faz também uma ótima alusão as infantilidades cometidas por todos, tanto os personagens e suas atitudes inconsequentes, como nós, álibis das imaturidades alheias.

Pecados Íntimos não fica um nome ruim, mas o original cairia muito melhor no contexto. O filme não é o melhor que eu assisti no ano até agora, mas vale muito conferir pelos pontos positivos.

Bunker - Capítulo 5/5

A mulher na porta, quando vê o representante fardado, chora antes mesmo de ouvir a notícia. – 01/09/1940

Bunker - Capítulo 4/5

21/08/1940 – Perdemos um pessoal considerável, mas haverá renovação da tropa. Volto pra casa mês que vem.

Bunker - Capítulo 3/5

02/01/1940 – Nossas expedições duraram mais do que o planejado. Os aliados desistiram e os conflitos pioraram.

Bunker - Capítulo 2/5

15/04/1939 – Já faço parte do 48º batalhão de fuzilamento. Amanhã será minha primeira ofensiva.

Bunker - Capítulo 1/5

13/03/1939 – Chegamos hoje. As tropas montam barracas, limpam armas e ouvem estratégias.

Mas posso conhecer

Não

conheço

Camilla.

Quem se esconde por trás daqueles óculos?
Por baixo de alguns caracteres?
Em meio a recortes dos outros?

Não

conheço

Camilla.

As referências que tenho não descrevem.
O que preciso escrever não discerne.
Baixinha e autoritária,
não serve.

Não

conheço

Camilla.

E que diferença faria?
Se conhecesse Camilla?
Se mesmo assim Camilla não
conhecer-me-ia?

Não

conheço

Camilla.

Não faço mais questão.
Acho que Camilla também não.
Só conhece de mim poucas palavras,
e eu dela a intermediária.

Não

conheço

Camilla.

Microconto #111

Era um pobre coitado que já fez de tudo nessa vida. Só morrer que, infelizmente, ainda não.

Microconto #110

Sempre foi um cara que gostava de tudo perfeito vírgula mas seu tic não durou muito tempo vírgula logo sua vida teve um ponto final

Irreversível

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Contado de trás pra frente, no melhor estilo Amnésia de Christopher Nolan, Irreversível consegue ser bem diferente disso.

Aqui vão duas coisas importantes, a primeira pra você se sentir interessado no filme e a segunda pra você desistir dele:

o filme é bom, mas exige estômago.

Porém, se eu fosse você, deixaria a primeira opção falar mais alto.

Com longas cenas que dispensam cortes, com uma câmera maravilhosamente nauseante e otimamente interpretado por Vincent Cassel, Albert Dupontel e Mônica Bellucci, os 3 protagonistas, o filme vale muito a pena.

Posso destacar algumas cenas que, com certeza, ficarão na sua cabeça depois da projeção: o estupro, a briga com o extintor e a sequência pelos corredores da boate gay, que antecede a briga. Isso sem falar dos diálogos e a cara de filme noir, em seu estilo básico da variação francesa de “novela escura”.

Não tem muita coisa fora isso pra falar sem estragar algum ponto da história, além do mais, Irreversível é um filme muito visual, sensorial, psíquico e gratificante.

Microconto #109

Parado no campo a beira do lago viu seu reflexo na água e se apaixonou ainda mais,
pela esposa, já que não era nada parecido com Narciso.

Microconto #108

As luzes apagaram e a grande tela acendeu. Estava pronto para encarar a ilusão que o deixaria momentaneamente mais feliz que sua realidade.