Microconto #325

Depois da briga,
no espelho quebrado,
ela se conforma com o futuro,
num mosaico de hematomas.

Microconto #324

- Por favor, vê pra mim dois pratos principais, duas taças de vinho do Porto e uma companhia se for possível.

Microconto #323

Numa batida perfeita os corpos colidiram.

Microconto #322

O corpo velado ouviu todas as confissões de adultério.
Que culpa tinha ele, se aquele era o único momento que, enfim, ela calou?

Microconto #321

Eram inseparáveis os irmãos siameses.

Microconto #320

Corre no rio um boato de que a água não é mais pura.

Microconto #319

Será que desliguei o gás? Pensou dona Helena depois de pular.

Microconto #318

Sento e peço dois cafés.
Brindo a solidão e faço companhia a mim mesmo.

Microconto #317

O tic tac do relógio aumentava a sensação de eco em sua cabeça e o vazio o deixava ciclicamente, mais hipnotizado no objeto de chronos.

Microconto #316

O filho reclamava do cardápio repetido.
Coisa que a mãe já sabia, era do seu prato que saiam as refeições.

Limites

O raio de luz entre a porta e o batente foi diminuindo lentamente até cessar.

Muitas vezes ele foi avisado que a altura com que falava poderia acarretar um resultado assim.

Ele sempre teve um comportamento macho-egoísta. Mas mesmo assim, viveram juntos por muito tempo; ele, devoto do regime falocrata; e ela, submissa condicional.

Momentos depois da porta ter fechado; ele ainda estava no mesmo lugar, imóvel, longe do móvel, destruído. Agredi-la nunca havia ocorrido. Palavras baixas como as que não valem ser repetidas, eram comuns, mas agredi-la, nunca, pelo menos até aquela hora.

Na cabeça uma certeza, ela vai voltar. Sempre volta. Precisa de mim. Nascemos restritos aos nossos próprios corações. Era essa a certeza que mantinha sua calma.

Como numa previsão, a porta abre; não na mesma velocidade que fechara, mas abre; isso pelo menos já é um sinal. Sinal do arrependimento dessa vadia pidona, pensou ele.

Junto com a prepotência, um sorriso cínico começou a formar no canto esquerdo da boca.

Só que quando os lábios abriram, não foi outra de suas grosserias que passou entre os dentes, mas sim, uma massa de liga de chumbo.

Quando os lábios abriram, não foi o som escroto de suas palavras que saiu, mas sim, o estrondo do propelente da pólvora.

Quando os lábios abriram, não foi o anélito fedorento de costume que veio a tona, mas sim, o bafo quente e metalizado do minério pobre.

Quando os lábios abriram; os olhos fecharam pra sempre.

Microconto #315

CêEfeGê, TrêsSeteQuatroDois.
Ela tem a placa guardada na cabeça até hoje.
Do mesmo lado onde ficam as lembranças do filho.

Microconto #314

O pedinte estendeu a mão, uma, duas, três, e na quarta vez, a fome consumiu seus movimentos.

Microconto #313

O vento
gela
a vela
que apaga
o frio
da capela.