Limites

O raio de luz entre a porta e o batente foi diminuindo lentamente até cessar.

Muitas vezes ele foi avisado que a altura com que falava poderia acarretar um resultado assim.

Ele sempre teve um comportamento macho-egoísta. Mas mesmo assim, viveram juntos por muito tempo; ele, devoto do regime falocrata; e ela, submissa condicional.

Momentos depois da porta ter fechado; ele ainda estava no mesmo lugar, imóvel, longe do móvel, destruído. Agredi-la nunca havia ocorrido. Palavras baixas como as que não valem ser repetidas, eram comuns, mas agredi-la, nunca, pelo menos até aquela hora.

Na cabeça uma certeza, ela vai voltar. Sempre volta. Precisa de mim. Nascemos restritos aos nossos próprios corações. Era essa a certeza que mantinha sua calma.

Como numa previsão, a porta abre; não na mesma velocidade que fechara, mas abre; isso pelo menos já é um sinal. Sinal do arrependimento dessa vadia pidona, pensou ele.

Junto com a prepotência, um sorriso cínico começou a formar no canto esquerdo da boca.

Só que quando os lábios abriram, não foi outra de suas grosserias que passou entre os dentes, mas sim, uma massa de liga de chumbo.

Quando os lábios abriram, não foi o som escroto de suas palavras que saiu, mas sim, o estrondo do propelente da pólvora.

Quando os lábios abriram, não foi o anélito fedorento de costume que veio a tona, mas sim, o bafo quente e metalizado do minério pobre.

Quando os lábios abriram; os olhos fecharam pra sempre.

9 comentários:

Carolina Filipaki disse...

Ninguém é tão paciente. Alguns explodem, literalmente... Ótima história!

Pedro disse...

Pagou por testar os limites...

gibin, thais disse...

é sempre um prazer te ler.
Se quiser @thaisg89, me dá um reply, que eu te sigo tbm!
bjs

Ju Fuzetto disse...

Ai dele que brincou com a sorte.

Tiago Moralles disse...

É o que se ganha.
Valeu pessoal.

Vivian disse...

...louco o que substima
a paciência do outro!

bj, amore mio!

Gordinha disse...

Na cara não, estraga o enterro! rsrsrsrs.

Bjs!
=D

Thiara Pagani disse...

Uma ar Nelson Rodriues.
Gostei.

Edu O. disse...

Não consegui mais sair daqui.