Microilustração de um microconto

Recentemente recebi o contato de Carol Rivello. Parafraseando o que disse o Massa Cultural, Carol é “meio mineira, meio catarinense”, mas ilustradora por completo. Trabalha atualmente no studio MidiaEffects e já teve passagem pelo Brasil e exterior.

O que me deixou mais satisfeito foi sua solicitação para ilustrar um dos meus microcontos, onde o mínimo que eu poderia fazer, era dizer um sim.

Aí embaixo você confere o belo trabalho executado.
Valeu Carol, e espero que gostem como eu gostei.
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Microconto #107

Não tinha mais como esconder a bruxaria, depois de queimada 7 vezes na inquisição.

Jornal da Tarde

Saiu nessa Quarta-feira (24/06), uma reportagem no Jornal da Tarde sobre Microcontos e suas adaptações às novas tecnologias.

Fui entrevistado ao lado de
Samir Mesquita (@samirmesquita) e Marcelino Freite (@MarcelinoFreire). Falamos um pouco dos trabalhos, das referências, das mutações literárias e das divulgações (leia jabá).

Para saber mais clica na imagem aí.
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Microconto #106

Todos os dias em frente ao banco ele esperava pela sorte em forma de doação.

Apenas o fim

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Existem dois tipos de mulheres no mundo, as que acham o Johnny Deep bonito e as que acham o Chico bonito”.

Construído com diálogos atuais, simpáticos e nerds (tão nerds que seria um daqueles filmes que facilmente meus pais descartariam para o final de semana), Apenas o fim, primeiro longa metragem do jovem cineasta Matheus Souza, retrata um fragmento da vida de Adriana (Érika Mader) e Antônio (Gregório Duviver), destaque para a boa interpretação de Gregório. O casal vive instantes de discussões em torno do fim do relacionamento. Recordações sobre bons momentos intercalam com as cenas externas, montando a história vivida por eles.

Falar sobre o baixo orçamento (R$ 8 mil) e outra questões como: locações, figurinos, empréstimos e elenco, chega a ser um demérito perto da qualidade dos diálogos. O trabalho agrada pela fluidez e pelo revigoramento da qualidade de produção nacional. Particularmente, eu excluiria a cena das filmagens, uma em que aparece o Marcelo Adnet, e a cena depois dos créditos, acho que o filme é muito mais que isso. #excesso.

Outro ponto interessante (e prematuro) que gostaria de comentar: será que depois de reformulações como o Cinema Novo e o Cinema da Retomada, essa poderia ser uma deixa pro Cinema da Geração Y?

Não sei ao certo, mas fiquei satisfeito com o resultado da projeção. Valeram as gargalhadas, o roteiro e as interpretações, e espero veementemente, que isso seja para o novo cinema brasileiro, apenas o começo.

Microconto #105

A arma mais forte para sobreviver na guerra eram as cartas da mulher, marcadas de lágrimas.

Microconto #104

Depois de 35 anos na detenção ele voltou pra rua do mesmo jeito que entrou: inocente.

Microconto #103

O taxista, o carro e a viagem eram os de sempre.
Mas, agora, com o novo cliente, a vida tem que ser outra.

Microconto #102

Viraram namorados virtuais, os corpos e as mentes se entenderam a distância, mas tudo graças ao darwinismo digital da sociedade.

Microconto #101

Denunciou gritos no Ap. 712.
Porta arrombada.
Marido e mulher pegos em flagrante.
Crime mesmo seria ele não fazer as vontades dela.

Marola

Conta-se aqui, que coisa de muitos anos atrás, viveu em beira mar, moça com beleza a causar gigantesca inveja, caso existissem moradores suficientes na região litorânea.

Apesar de sua rotina simples e apesar ainda mais do minúsculo vilarejo, nunca chegou próximo do mar. Uns achavam ser superstição familiar, outros, os mais interessados na beleza, achavam ser ciúmes hereditário. E mesmo com todo o cuidado que rodeava essa fina linha carnal da perfeição, alguns ainda conseguiam flertar a menina pura.

Com olhar simplório, delicados gestos e sem intenção, ela fascinava quem a olhasse, mas não correspondia a troca de olhares e muito menos dava isso a entender, apenas vivia, e nada mais era necessário.

Enlouquecendo todos os moradores, aos poucos foi crescendo e dobrando beleza. Se é que era possível aumentar. Inveja, desejo e cobiça, proporcionalmente também aumentavam.

Como a vida não é aliada de nada, morreram anos depois, os pais da moça, que viu-se sozinha em seu pequeno mundo. A necessidade de buscar vida fora dele e a curiosidade para descobrir o além das terras de família, fez com que cruzasse os limites terrenos.

E esse foi o dia da redenção.

Todos, sem exceção, pararam para observar beleza que se materializava em mulher.

O primeiro sonho: conhecer aquilo que os pais chamaram toda vida de mar.

A passos lentos e hipnóticos, seguiu em direção ao fim da areia. Os pés tocaram a imensidão de água em um momento único, sublime e romântico, tanto pra ela como para a borda do oceano, que, até aquele dia, estática, desconhecia o significado de movimento e marola.

Até hoje, acredita-se que o mar vem a praia milhares de vezes durante o dia, em formato de ondas, na busca cegante e apaixonada de rever a moça, que naquela mesma noite, foi morta pelos moradores, consequência da inveja de beleza alheia.

Microconto #100

Nunca dava tempo de assustar ninguém com os microcontos de terror.

Microconto #99

No asilo, usavam o termo “anos de experiência”. Ninguém falava a idade, até porque, problemas de memória eram bem comuns.

Microconto #98

Condicionado a pequenos raciocínios literários, não fazia mais do que isto.

Microconto #97

Pedro e Tina se uniram no casamento, mas até hoje, compõem uma soma da qual os resultados não batem.

Microconto #96

Passou a vida inteira esfregando o chão. Decidiu mudar, pediu as contas, arrumaria outro emprego. Não suportava mais a cara da patroa.

Microconto #95

Ficou lá todos os 150 segundos. Era sua primeira vez. Frustraria o sonho da culinária se queimasse as pipocas de micro-ondas.

Budapeste e sua metalinguagem

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Metalinguagem.

Sim, essa é uma palavra que pode definir, e muito, a obra literária de Chico Buarque, Budapeste. Assim como o livro, o filme, mesmo com suas falhas execucionais (o que qualquer adaptação está sujeita), também carrega essa linguagem. Que, diga-se de passagem, muito bem detalhada por Walter Carvalho. Além da boa interpretação de quase todo elenco, o filme traz cenas agradáveis e bem construídas.

O cinema com toda sua desrealização da realidade, apresenta sempre uma forma de inovar na captação do ilusório, e em Budapeste não é diferente, o fim da projeção retoma todo um olhar do Cinema Verdade, iniciado na década de 60, e característico pelas desconstruções e pelo modo participativo. Paralelo a um documentário, o longa de Walter faz uso claro do narrador em primeira pessoa, retirado do livro, que faz aparições em voz over.

Essa montagem deixa ainda mais clara a dúvida na mente do espectador, de onde necessariamente começa a ficção, ou onde necessariamente acaba a realidade. José Costa, ghost writer, protagonista das obras, leva sua vida no anonimato, e, confunde a cada linha e a cada entrelinha, se na verdade a história é contada ao mesmo tempo em que é escrita, se é escrita ao mesmo tempo em que vivida, ou se é apenas uma dupla personalidade literária na cabeça do escritor, como fuga da vida em um mundo de sombras.

Ainda assim, fico com o livro, pelo simples fato da fluidez. O que não torna o filme de todo ruim, tirando o egocentrismo de Chico ao aparecer em cena, a interpretação de Giovanna Antonelli, fraca por sinal, e alguns detalhes inclusos para agregar valor a narrativa, Budapeste é bem fiel ao livro, com direito a gostosa confusão que é capaz de causar em nossas mentes.