Marola

Conta-se aqui, que coisa de muitos anos atrás, viveu em beira mar, moça com beleza a causar gigantesca inveja, caso existissem moradores suficientes na região litorânea.

Apesar de sua rotina simples e apesar ainda mais do minúsculo vilarejo, nunca chegou próximo do mar. Uns achavam ser superstição familiar, outros, os mais interessados na beleza, achavam ser ciúmes hereditário. E mesmo com todo o cuidado que rodeava essa fina linha carnal da perfeição, alguns ainda conseguiam flertar a menina pura.

Com olhar simplório, delicados gestos e sem intenção, ela fascinava quem a olhasse, mas não correspondia a troca de olhares e muito menos dava isso a entender, apenas vivia, e nada mais era necessário.

Enlouquecendo todos os moradores, aos poucos foi crescendo e dobrando beleza. Se é que era possível aumentar. Inveja, desejo e cobiça, proporcionalmente também aumentavam.

Como a vida não é aliada de nada, morreram anos depois, os pais da moça, que viu-se sozinha em seu pequeno mundo. A necessidade de buscar vida fora dele e a curiosidade para descobrir o além das terras de família, fez com que cruzasse os limites terrenos.

E esse foi o dia da redenção.

Todos, sem exceção, pararam para observar beleza que se materializava em mulher.

O primeiro sonho: conhecer aquilo que os pais chamaram toda vida de mar.

A passos lentos e hipnóticos, seguiu em direção ao fim da areia. Os pés tocaram a imensidão de água em um momento único, sublime e romântico, tanto pra ela como para a borda do oceano, que, até aquele dia, estática, desconhecia o significado de movimento e marola.

Até hoje, acredita-se que o mar vem a praia milhares de vezes durante o dia, em formato de ondas, na busca cegante e apaixonada de rever a moça, que naquela mesma noite, foi morta pelos moradores, consequência da inveja de beleza alheia.

17 comentários:

Gordinha disse...

E o nome dela era Malena! Que bonitinho, gostei dessa!

Abraços
=D

Tiago F. Moralles disse...

Na verdade eu não pensei em nome nenhum, afinal, lenda é lenda hehe, pode ter acontecido com qualquer um.

Fernando Segredo disse...

Muito bom.
Parabéns.

Gessica Borges disse...

Tenho uma amiga que vai adorar esse conto.

Dezoito anos depois do nascimento, tocou o mar pela primeira vez na semana retrasada.

Romântica que é, vai rapidinho se encaixar no espírito da sua personagem.

Que bonito, homi!

Beijo*

Tiago F. Moralles disse...

Valeu Fernando, principalmente pela visita.
_

Gé, passa pra ela o link, quero ver o que ela vai achar.

Fernando Segredo disse...

Valeu Tiago!
Obrigado pela visita no blog. Estou atualizando novamente.

Abs

Silvia disse...

É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar!

Achei lindo.

Tiago F. Moralles disse...

Ficou agradável né?
Apesar que não resisti, e tive que entristecer o final hehe.

Gessica Borges disse...

Ela é meio analógica sabe..
Vou imprimir, levar pra ela, e te conto a reação/opinião, pode deixar ;)

Victor disse...

Tudo era bonito, delicado e suave. Aí ela morre. Hehehe.
Belo texto, Tiago (aproveitando o espírito).

Tiago F. Moralles disse...

Bem no espírito hehe.

Kenzo Kimura disse...

Tudo tem a sua primeira vez. Pena que para ela também foi a última.

Legal o conto, Tiagão. Parabéns, meu velho.

Tiago F. Moralles disse...

Valeu Kenzo.

Ah, descobri quem é Sandro Silvestre hehe, depois a gente conversa.

Nayara Diniz disse...

"Histórias que nos contam na cama, antes da gente dormir"

Tiago F. Moralles disse...

Ana e o mar, Mariana.
Total inspiração.

Iasnara disse...

muito sentido. isso sim é final feliz.

Tiago F. Moralles disse...

Um final feliz com duplo sentido.