Microconto #138

Conheceram-se no chat, trocaram scraps, intimidades no MSN, sexo pela cam e só terminaram depois de um e-mail dele com vírus.

Osasco - Jurubatuba

O que fazia ele acreditar que aquela conversa no Nextel era interessante pra todo mundo?
Daqui do fundo, no meu banco, eu conseguia ouvir toda a rotina dele, fracionada, mas ouvia.
Trabalho, praia, mulheres, futebol e fim de semana eram palavras que eu identificava mais facilmente.
Não, e não era só eu que tava envolvido na conversa não, tinha uma tiazinha do meu lado, com uma sacola branca do Carrefour no meio das pernas, que tava prestando, acho que até mais atenção do que eu.
O trem tava cheio, não tinha gente de pé, mas todos os lugares estavam ocupados.
Na minha frente era engraçado, tinha uma menina que acordou e chegou a tirar um dos fones do ouvido só pra ficar prestando atenção na conversa do cara do Nextel.
E lá no fundo continuava o diálogo público, um bip ele falava, outro bip ele ouvia.
O cara do outro lado era corinthiano, dava pra saber porque o de cá lembrou da derrota no jogo de ontem, que por sinal foi merecida. Erraram muitos passes, chutaram pouquíssimo, e fora que assim a gente continua na frente da tabela.
Como o trem ia em silêncio, a única distração acabou sendo mesmo a conversa dele. Às vezes até saia umas coisas engraçadas. Foi numa dessas que a menina da frente olhou pra mim e deu risada. Bem, isso era um sinal, acho que daqui sai alguma coisa, pensei comigo. Na próxima brecha dela eu solto um comentário.
O papo continuou, assim como as trocas de olhares ansiosos por uma iniciativa. Acho que ela esperava eu falar alguma coisa, tipo, ela, sozinha, no trem, não ia falar comigo, além de dada ia parecer fofoqueira né? Puxou papo comigo sobre a conversa dos outros? Não, ela não ia falar. Se eu quisesse conhecer a menina da frente eu teria que abrir a boca.
Mais umas duas estações passaram, o papo continuava e eu também, esperando outro sorrisinho convidativo. Já nem prestava mais tanta atenção na conversa, fiquei aguardando o gancho pra soltar um comentário na hora certa.
Paramos na terceira estação, acho. A porta abriu e entrou um filha da puta de boné pra trás com um celular na mão ouvindo funk no último volume. O som abafou a conversa do Nextel, ninguém do lado de cá conseguia ouvir mais nada. Aí, a menina da frente colocou o fone de volta no ouvido, encostou a cabeça no vidro, fechou os olhos e voltou a dormir.
Sempre tem um pra ouvir música no celular.
Ah essa merda de tecnologia.

Microconto #137

Quando acordou e viu que o sol não estava lá, descobriu que era o início de uma grande insônia.

Microconto #136

Riscava no batente da porta a altura do filho que não mudava tanto quanto a largura. Mãe é mãe, mas nunca assumiria problemas genéticos.

Microconto #135

Os planos futuros da infância agora são passado.
Vasculha a memória procurando onde foram esquecidos.

Amor suburbano

Como parte do cotidiano, a luz vermelha é acesa, e uma multidão vai se unindo, cada um esperando o seu momento.

Vultos que buscam suas posições, confundem rapidamente minha visão.

E na busca de liberdade visual, meus olhos são presos por aquela beleza.

Com movimentos desacelerados, mesmo assim, consegue fugir de toda minha velocidade.

A brisa, agora, assume um outro aroma quando cruza aqueles cabelos.

O tempo que deveria congelar, passa a ser mais rápido, e aquela caixa com duas luzes, começa novamente a dar sinal de mudança.

Agora é a vez do verde.

Os corpos são deslocados para frente, coordenados por uma rotina fria.

O corpo dela começa a fugir da minha visão, e dos outros sentidos também.

E ainda assim, sinto o rastro de seu aroma entre os obstáculos humanos da cidade.

O resquício visual do contorno de um corpo, que inferioriza os outros, ainda se faz presente no meio da multidão.

Mas, pouco a pouco, o brilho que reflete naquela pele, vai desaparecendo.

Já quase não é mais possível acompanhar o trajeto. As pessoas não imaginam que ali acontece um romance, e assim tomam minha frente.

Sua velocidade e minha necessidade aumentam, da mesma forma que a distância entre os nossos corpos.

Quando menos se percebe, ela desaparece no aglomerado humanóide, e, como o encontro; em fração de segundos; o desencontro.

Nunca mais aquele semáforo será mesmo.

Saudades prematuras.

Microconto #134

Embaixo do velho chapéu, um corpo tão cansado, deixava em dúvida quem sustentava quem.

Microconto #133

- Nossa, como ele é feio pra ela. Disse minha inveja.

Microconto #132

O forasteiro abusou da filha do caipira e sumiu sem deixar nenhum vestígio fora dela.

A você o que é seu

Como assim você vem e muda tudo? Até parece que é tudo seu.
Eu tava muito bem aqui até você chegar.
Sozinho, isolado, no escuro.
Um simples escritor fadado a solidão como qualquer outro que se preze.
Mas não.
Tinha que chegar você. Com esse jeito ímpar, que além de única, é notória.
Tava eu aqui, deprimente, sórdido, taciturno. E de repente,
um brilho todo diferente ilumina a minha vida.
E tão rápido como vem,
vai.
Aí,
agora,
ao invés de escrever coisas frias, tristes e melancólicas como eu tava acostumado e satisfeito,
não.
Fico a vagar em parques, praças, no meio da multidão,
esperando calor, cor e inspiração,
pra escrever, iludidamente, poemas, versos e cartas,
de solidão,
claro.
E,
aqui sim, tudo é seu.
Tudo.
Que ao mesmo tempo não é nada.
Nem pra mim,
muito menos pra você.

Resultado do FUC

Nesse sábado, 12/09, aconteceu no Anhembi o evento de premiação do 2º Festival Universitário de Comunicação, conhecido como FUC. Antes da premiação pude conferir 3 palestras com João de Simoni, Antônio Fadiga e Átila Francucci que mereceriam muito mais do que só essa citação.

O festival contou com mais de 2.500 trabalhos inscritos de todo o Brasil, dos quais, 500 passaram para a final, o chamado shortlist, e desses, apenas alguns foram premiados com bronze, prata e ouro separados em categorias.

Queria dividir com vocês que o trabalho abaixo inscrito por mim, conquistou Prata Nacional. Fico feliz em poder fazer parte dessa premiação e contar com mais um passo nessa longa escada.
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Obrigado a todos pela torcida.

Microconto #131

Nosso amor crescente me faz gostar de você mais do que quando comecei esse conto.

Microconto #130

No mal-me-quer do cotidiano, minhas pétalas pararam de cair.

Microconto #129

Vamos viver assim então.
Confundir paixão com ódio e amor com tesão.
Quem sabe pelo menos a gente não engana a rotina.

Paul Auster e suas amarras

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Quando recebi a indicação do amigo Mauro Paz pra conhecer o trabalho do escritor americano Paul Auster, a sugestão era o livro A Trilogia de Nova York mas, a curiosidade foi tanta que acabei me perdendo no primeiro trabalho de Auster que achei pela frente. A vítima foi o pequeno Caderno Vermelho, um conjunto de fragmentos (ir)reais ligados por pequenos detalhes, e se, não fosse pouco pra conhecer a obra de Auster, esses pequenos detalhes movem muito mais do que um só trabalho.

Quando cheguei recentemente em A Trilogia de Nova York pude mais uma vez conferir seu poder em interligar histórias com detalhes. Três contos que funcionariam perfeitamente sozinhos, não fosse a preocupação perfeita de Auster em ligar todas as amarras. O livro é composto por três óbvias partes, Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado, trabalhando sutilmente juntos em torno de um tema comum, a perda de personalidade de seus protagonistas. Vale a leitura. Dica repassada.

Detalhe também pra capa da versão que consegui, feita pelo ilustrador Art Spiegelman, responsável pela produção do romance gráfico e mundialmente conhecido, Maus.

Microconto #128

- Nossa, que tesão. Para de gemer e diz que me ama!
- Decide. É pra fingir ou pra mentir?

Microconto #127

Abandonada com o filho na barriga, a mulher xingaria pelo resto das noites:
- Só a cabecinha né? Filadaputa!

Microconto #126

O voyeur urbano se apaixonava a cada nova esquina.

Microconto #125

- Droga! Você disse que o corpo não boiava.