Microconto #239

No velho sítio, tudo traz o passado;
a cocada tem lembranças,
o armário tem cheiro
e o vô tem saudades.

Microconto #238

Sob a árvore,
olhando a mata destruída,
descansa o lenhador.

Microconto #237

Ela se recusou a beijar o sapo.
Estava desiludida com príncipes encantados.

Microconto #236

Se não é pecado,
por que eu não posso contar pra mamãe,
padre?

Microconto #235

Todo mundo já comeu.
Até o marido.

Sempre há riscos

- Volta aqui seu filha da puta, cretino, otário, sem noção.

Ela insistiu nisso mais ou menos umas três vezes, como se a porta fechada há alguns minutos, a jornada do elevador ao térreo e o carro que já dobrava a esquina, fossem permitir que ele ainda ouvisse.

Poucos segundos depois, estava refletindo o porquê demorou tanto para gritar. Medo que ele soubesse seus reais sentimentos? Medo que ele soubesse que daquele jeito ela não ia viver muito tempo? Medo que ele soubesse que ela tinha medo? Medo do medo? Ou seria, simplesmente medo?

Ainda estava com o cheiro do suor dele no corpo, o gosto do sexo na boca e o eco das últimas palavras ao pé d’ouvido - eu tô sem grana de novo.

16h - Capítulo 5/5

O vizinho assassino não foi achado.
Mas, dessa vez, fazendo compras, o mordomo escapava de ser o culpado.

16h - Capítulo 4/5

Ao fundo a porta fechada sem provas do suspeito.
À frente, os olhos abertos sem vestígios vitais.

16h - Capítulo 3/5

No relógio a badalada marcava a hora certa.
Na boca, o último suspiro marcava a errada.

16h - Capítulo 2/5

No chão um fragmento de história dividido em dezenas.
No coração, a recordação em dezenas de histórias.

16h - Capítulo 1/5

Na janela escorria uma das milhares de partes da chuva.
Na cômoda, uma gota vermelha, revelava o crime.

Microconto #234

Dorme comigo e deixa a lua guardar segredo.
A noite vai ser só nossa.
O sol não precisa saber mesmo.

Microconto #233

Quis pensar algo bom, pra ver se a gente saia dessa merda.
Mas sua mente sempre me joga no passado,
cru,
frio
e
obviamente real.

Microconto #232

Não é que eu sou porco,
mas os pelos no ralo do banheiro foi só o que sobrou de você.

Microconto #231

Na frente do computador, passando a limpo o caderno de receitas, ela o provoca no bate papo, e ele acreditando, bate muito mais que isso.

Microconto #230

Descobriu que não era tão bom motorista enquanto dormia.

Microconto #229

A maquiagem dela dizia muito sobre nossa noite.
Começava bem feita e terminava borrada.