Microconto #228

Encaixaram-se as mãos, os braços e o resto do corpo,
as bocas também teriam o mesmo fim,
não fosse o tamanho das barbas.

Microconto #227

Na banheira com gelo ela pensa,
o rim é o de menos,
pior mesmo foi perder aquele gato.

Microconto #226

Estava tão envolvida que não sabia mais quem era marido e quem era amante.

Trabalho decente

Niht Club,
sinalizava a fachada.
Assim mesmo,
com o g apagado.
Ali embaixo,
ganhava a vida,
uma prostituta semi analfabeta,
que nunca deu falta disso.
Por sinal, sabia de poucas coisas,
uma delas era que nem todos tinham como pagar o prazer de neon,
e assim sobravam clientes.
Sabia também que os que trocavam sempre de carro,
eram casados,
que os que passavam de vidro aberto, braço pra fora e na maioria das vezes com som alto,
só queriam aparecer, já que não tinham como pagar.
Conhecimentos empíricos e involuntários.
O destino foi justo com ela apesar da injustiça que fazia com o corpo.
Anônima nos prazeres,
Carla era conhecida como microempresária pelos vizinhos da vila onde morava.
Tinha dinheiro,
era comunicativa,
independente
e trabalhava no centro comercial,
na área nobre,
frequentada só por gente boa de grana.
Perto de um tal “Clube Nit”, como ela dizia.

Microconto #225

Trocou a cidade pelo campo,
o marido pela solidão
mas só percebeu a depressão quando os pulsos choraram.

Microconto #224

O escritor solitário conversava com o papel,
o papel respondia em argumentos vazios
e a literatura se enchia de sofridos devaneios.

Microconto #223

Olhava pro céu todas as noites na esperança de ver a mesma lua do casamento. Assim como o amor, o brilho nunca mais foi o mesmo.

Microconto #222

- Papai, tava pensando, acho que não é tão ruim morrer.
- Aé? Por quê?
- Por que vai dar pra ver a mamãe.

Figurinhas de Max Ernst

Dia desses reservei um tempo e fui ali no MASP ver umas colagens.
O artista era Max Ernst, pintor surrealista alemão.
A exposição era Uma Semana de Bondade, guardada há mais de 70 anos.
Foi bom. A mostra é separada em dias da semana: Segunda, Terça, Quarta e o resto de sempre. Max representa cada dia com elementos que retratam as dificuldades sociais da época. Contraditoriamente aos costumes trabalhistas atuais, a Segunda-feira é a melhor delas. Nada contra os outros dias, mas os leões representantes do poder, dão à Segunda um charme especial.
Cheguei em casa e contei pra minha mãe; ela disse que viu uma reportagem a respeito na TV. A repórter falou que o MASP tinha virado o ponto de encontro dos colecionadores de figurinhas da Copa, e que todo mundo ia lá pra trocar e colar.
E pra fechar com chave de ouro ela ainda me perguntou se a figurinha desse tal de Max “Ernesti” que eu falei, era mesmo a mais importante dessa colagem.

Microconto #221

Não conseguia terminar a carta de despedida.
A cada palavra que jogava no papel, outras eram borradas pelas lágrimas.

Microconto #220

O roteirista anônimo ganhava dinheiro escrevendo sua própria história.

O livro de Gênesis, segundo Antubal

É dito de uma vila, onde um camponês humilde cuidava de sua casa e de um filho calado. Tanto pai, como filho e mais toda a vila, frequentavam a pequena igreja que coordenava a vivência no local. O filho, conhecido como Antubal, parecia ser o único na região que não demonstrava com afinco, o amor pela santidade aclamada na capela.

Não só para o pai, mas para todos os moradores, começava a ser nítida essa antipatia gerada pela igreja no coração do menino. Os comentários cresciam, e a revolta chegara ao pároco, que mesmo sem saber o porquê, já alimentava, contraditoriamente as leis da igreja, repugnância pelo jovem.

A pressão trazendo cada vez mais constrangimento ao camponês, fez com que marcasse um encontro do filho com o comandante religioso. Local definido e tema acertado, o menino receberia todas as ordens apostólicas, e de uma vez por todas, faria parte da igreja.

O relato a seguir pode ter sofrido algumas mudanças com o passar do tempo, entre palavras e expressões, mas é exatamente o que saiu do encontro, a versão de Antubal sobre a origem.

Explica-se no livro escrito à várias mãos, que a origem do homem veio por intermédio de um casal conhecido, ele por Adão, e ela por Eva. Opostamente aos mais entendidos da ciência não divina, que atestam a origem do homem como a evolução de um animal que ganhou o nome de macaco não se sabe quando.

O que Antubal disse ao cervo religioso, foi a mais louca das blasfêmias já ouvidas desde a origem desta história. Disse, que na verdade, ambas as mentes defendem a mesma coisa sem saber. Afirmou que Adão e Eva eram macacos, e por serem animais, tem confirmado e explicado o motivo que permitiu o cruzamento e assim a reprodução entre os próprios descendentes.

Não parou por aí, disse também que a metáfora de terem visto que estavam nus, diz respeito aos anos de evolução das espécies e consequentemente da perda dos pelos do corpo. E que sendo assim, Deus, em sua infinita glória e tendo até hoje nunca dado as caras, e, por ter feito de Adão e Eva sua imagem e semelhança, torna-se também, um grande macaco.

Ao término da confissão, o padre, desconjurado pela invenção frustrante de Antubal, veio a falecer de morte morrida. Jogou-se da torre da capela, não suportando ouvir aquilo. Antubal, chocado com a credulidade e compaixão do velho sacerdote, converteu-se imediatamente ao mundo religioso e abandonou de uma vez por todas sua tese hipotética.

Mas, dizem, até meados dos dias que se escreve esta história, que o pobre homem da fé, ainda vaga pelas redondezas da porta do céu, justamente por não saber se comunicar com os primatas.

Microconto #219

Amor de mãe. Deu a benção e a última facada.

Microconto #218

Aquela pele fina em formato ovalado, fazia dela, um ser deformado, que gerava um fruto, independente do amor ter acabado.

Microconto #217

Entre eles faltavam palavras pra demonstrar o amor. Mesmo assim, formavam um lindo casal de mudos.

Microconto #216

- Peraí, quem é o assassino agora? Perguntou ao juiz, o condenado a morte.

Alguém viu um filme por aí?

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Sempre gostei de Tim Burton mais por sua visão artística do cinema do que pelo conjunto. Salvo exceções do tipo Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas.

Não esperava um grande filme sobre a história da menina Alice, principalmente porque não considero a história original tão grande assim. Lewis Carroll, sempre mostrou ser melhor matemático do que escritor. O filme dirigido por Burton é, na verdade, uma possível continuação da história original, onde Alice volta, depois de grande, ao “País das Maravilhas”. Que aqui sim, cabe muito bem o “Maravilhas”.

Com visual quase impecável, Tim Burton leva aos cinemas, mais uma vez, vida, cor e detalhe. O que enche os olhos, infelizmente não enche a expectativa. História acelerada, com diálogos fracos e de baixo conteúdo. Tim Burton se une ao time de Cameron e mostra mais uma vez que precisa de roteiristas. Alice, assim como Avatar, presa pela perfeição estética e peca na simplicidade narrativa.

Agora o que resta é dúvida: quem leva mais gente aos cinemas, Tim Burton e sua reunião de fãs alternativos, Johnny Depp e sua versatilidade ou animações 3D sem conteúdo?