Filho da mídia

Alberto adorava TV, principalmente os comerciais. Tudo que os comerciais vendiam ele comprava; produtos, serviços, móveis, imóveis e automóveis; novos, usados, batidos, quebrados e ultrapassados. Já foi de tudo um pouco, pescador, ator, artista, arteiro; locutor, humorista e banqueiro.
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Alberto só trabalhava em função dos comerciais, seu dinheiro acabava, porém, seu status crescia. Era anunciar um carro novo e ele logo dizia: - Vou comprar esse, sei que só vai durar um dia – com ele, conseguia mais amigos, com amigos conseguia indicações e com indicações, no emprego crescia, e assim mantinha seu vício; aos olhos dos outros, de consumir porcaria, e aos seus, de abraçar oportunidade que aparecia.
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O que Alberto mais gostava de consumir eram produtos que mexiam com os sentimentos e sensações. Uma vez anunciaram um protetor solar, dizia o locutor: - Você está sentindo sua pele queimar? Talvez não tenha se protegido direito neste verão. – Alberto mal esperou o cara terminar, só viu que produto era e foi logo arrumar, nem sequer viu o sol neste verão, mas já estava sentindo sua pele esquentar.
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O maior problema é que Alberto não reconhecia aquilo como doença. Por isso não aceitava ser medicado, tentou até sem solução, ir a um psicólogo para ser tratado. O que o pobre doutor não esperava, é que Alberto já havia visto um comercial que falava: - Não confie em médico que na Unibom não tenha sido formado.
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O tempo passava e aquilo se tornava um tormento para os familiares, quando achavam que ele ia parar porque na casa nada mais entrava, lá estava ele assinando um novo consórcio que na TV havia visto, nada mais adiantava, Alberto com uma nova casa agora maior, a família já até imaginava o que desta vez aguardava.
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Não demorou muito para Alberto adoecer, só foi anunciar na TV que uma epidemia de febre amarela chegava pra ficar e ele logo começou a se desesperar. Disseram no jornal que os sintomas eram graves, dores, febres e cansaço, logo ele que sempre foi um homem de aço, afinal, desde pequeno tomava seu Biotônico Fontoura na colher Tramontina, a melhor do pedaço.
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Um belo dia sentado em frente à TV e também com o rádio ligado, ao mesmo tempo em que viu uma propaganda dizendo que servia para quem já não enxergava mais nada, ouviu no rádio um anúncio para uma instituição que aos surdos ajudava, só para piorar, a energia acabou, ele ficou naquela situação, não ouvia e nem enxergava. Para os parentes uma alegria, afinal, um problema estaria resolvido, mas para Alberto, foi um tormento, todo dia pedia para Deus: - Por favor, me dê de volta pelo menos a minha visão, já que agora aprovaram uma lei em que os comerciais legendados serão.

2 comentários:

Nayara Diniz disse...

Já tinha lido em primeira mão =D
Alberto é a continuação de todos ou outros personagens, mas sei qe qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...

Beijo
Nayara Diniz

-=Tiago Fidelis Moralles=- disse...

Continuação não, é um próprio "Filho da mídia" mesmo hehe.
Beijo.